Thursday 25th April 2013,
Som Alternativo

Super Bock Super Rock 2012: Peter Gabriel – dia 7 de Julho

Com muito menos pó que anos anteriores e com um cartaz incapaz de atrair grandes multidões, arrisco a afirmar que a 3ª edição do festival SBSR realizada na Herdade do Cabeço da Flauta, vulgo mata de Alfarim, vulgo Meco foi a mais simpática que o malfadado recinto proporcionou a quem o arriscou visitar.

A grande novidade este ano acabou por ser mesmo a crise, a competição com outros festivais que contribuíram para que se estivesse completamente à larga no SBSR. No entanto a noite de Sábado foi a mais concorrida (26 mil pessoas segundo a organização). Para trás ficavam os gritinhos histéricos de adolescentes que no dia anterior brindaram Lana del Rey como se esta fosse a messias do novo som alternativo que por aí se faz. Ao ver o concerto da norte-americana e escutar canções parvas e piegas como “National Anthem” fiquei com a impressão que se este é o “neo” alternativo, então eu quero pertencer ao mainstream. O mais depressa possível e sem vergonhas. Venham antes esses grandes senhores duma caravana nacional cheia de soul, rockabilly, punk e blues chamados Wraygunn. Estes sim. Demostraram com unhas e dentes como é que se faz um espetáculo de rock n roll e mereceram o prémio de salvadores do tédio que se apoderou da noite fresca de sexta à noite.

Adiante, passemos a sábado. Havia finalmente um nome no cartaz capaz de elevar a faixa dos festivaleiros acima das 20 mil pessoas. Peter Gabriel acompanhado da sua New Blood Orchestra deu “o concerto” do festival inteiro.

Arrancaram sorrateiramente como “Heroes”, clássico de Bowie reinterpretado de uma forma mais negra e melancólica. Lá estava ele. O génio. Completamente calvo, barbicha branca debaixo do queixo. Quem não o conheça, nos dias de hoje ele mais parece um cientista de laboratório do que uma estrela de rock.

Muitos anos passaram desde os tempos em que ele encarnava várias personagens num só concerto para emprestar um caracter teatral às canções épicas dos Genesis, no entanto esse sentido de espetáculo dramático ficou.

Mas para além do aparato visual da orquestra e dos neons e luzes habituais nos seus concertos, o que mais me impressionou foi a força que ainda brota da voz de Peter Gabriel. Rija, madura e encorpada como uma boa pipa de carvalho.

Seguiram-se “Intruder”, a tal música que no início dos anos 80 Phil Collins surripiou a batida para criar “in The Air Tonight” e o magistral “Secret World”.

A partir daqui o concerto seguiu em velocidade cruzeiro com mais clássicos obscuros da sua autoria como “Diggin the Dirt”, “Rhythm of the Heat”, “Downside Up” deram cartas. O único incidente foi mesmo a repetição de “Aprés Moi”, onde apesar de um ligeiro engano da orquestra, Gabriel não resistiu à tentação de convidar a sua autora Regina Spektor para um magnífico dueto.

De resto só cá faltou a amiga Kate Bush para cantar o apoteótico “Don´t Give Up” na reta final que começou meia hora antes ao som da única canção que o Meco parecia conhecer: a animada “Solsbury Hill”. Pelo meio ainda cantou um sempre apoteótico “Biko”, uma grande canção muitas vezes esquecida como “Red Rain” e um emocionante “In Your Eyes”.

Gabriel mostrou a todo porque é continua a praticar o chamado “rock sinfónico” com distinção e porque é que sabe envelhecer graciosamente, sem cair nos habituais clichés dos “jovens” da sua idade e estatuto. A única coisa que lhe podemos apontar é falta de prática no português. Gabriel tentou falar a nossa língua praticamente o concerto todo sem que se conseguisse perceber muito sobre o que estava tentar transmitir. No entanto reconhecemos-lhe o esforço de cantar “Signal to Noise”.

(8/10)

Like this Article? Share it!

About The Author

Deixa-nos a Tua Opiniao