Julgávamo-lo definitivamente perdido para o mundo da música. A sua carreira desde o multi-platinado “Supernatural” (1999) era uma sucessão de duetos pop, a roçar o mau gosto chunga inflamado em compromissos comerciais que lhe granjearam alguns Grammys, estádios cheios e uma conta bancária recheada de muitos dólares. No entanto, isso nunca trouxe a felicidade completa a um músico como Carlos Santana. Uma lenda da guitarra, um ícone do rock, um músico completo que num passado longínquo nos deu alguns dos melhores discos que faziam a ponte perfeita entre o rock (“Abraxas”) e o jazz (“Caravanserai”) ou a música latina (“Santana III”). 
Meramente dois anos depois de uma tentativa medíocre de reinterpretar algumas das melhores malhas do rock que foi o fiasco de “Guitar Heaven” é com muito bons olhos que Santana e a sua banda publicam o seu melhor disco em décadas: “Shapeshifter”. Um regresso a terrenos mais instrumentais, com vontade de experimentar alguns ambientes sonoros novos. Vislumbra-se aqui um disco de puro prazer em fazer música. Só pelo gozo de tocar.
E quando assim é, tudo se torna tão simples de imaginar e de absorver. Fácil. “Shapeshifter” é uma obra que não vai vender nada comparado com os mais recentes discos da última década, mas restitui aos Santana aquele sentido de liberdade e de pura espiritualidade que sempre foi a base do sucesso dos seus primeiros discos.
Respirando este ar de nova independência criativa, facto esse que não deverá ser dissociado do facto de os Santana terem saído da major Arista, editando o disco através da própria editora – “Starfaith” – os músicos carregam o rock de aroma latino e jazzy para ambientes que verdadeiramente delirantes, evocativos de ambientes de viagens exóticas. É como se fosse um idílico quadro sonoro para se absorver ao final de mais um dia de Verão.
O calcanhar de Aquiles acaba mesmo por ser o único tema vocal presente. “Eres la Luz” é o único vestígio manhoso do passado mais recente e menos interessante de Carlos e seus “muchachos”. O resto é sempre a esgalhar na fusão. Destaque para a desbunda solista do tema que empresta o nome ao disco; para os ambientes rock de “Nomad”; o carácter jazzístico de “Angelica Faith”; as infusões latinas de “Never the Same Again” ou “In the Light of a New Day”. Pelo meio a espiritualidade de “Spark of the Devine” e as aventuras world de “Mr.Szabo” (homenagem ao hungaro Gabor Szabo, o autor de “Gypsy Queen” que complementa a versão de 1970 de “Black Magic Woman”) e “Macumba in Budapest”.
Pode não ser o disco do ano, nem vender grande coisa, mas os argumentos acima evocados são mais do que suficientes, para celebrar o regresso do mestre e da sua banda de músicos magníficos a um lugar musical de onde nunca deveriam ter saído.
(7/10)










Depois, escuta o Santana – Guitar Heaven: The Greatest Guitar Classics of All Time (2010), que tem o Santana cantando com 3 ícones grunge (Soundgarden, Stone Temple Pilots e Bush):
Tracklist:01 – Whole Lotta Love (Feat. Chris Cornell)02 – Can’t You Hear Me Knocking (Feat. Scott Weiland)10 – Bang A Gong (Feat. Gavin Rossdale)