Chega a uma altura na vida em que não temos que provar nada a ninguém ou fazer o obrigatório frete para chegar a um determinado objetivo. É precisamente o que se deve passar no estado espirito destes dois senhores sexagenários. Cada um deles com uma longa e sólida carreira de décadas ao serviço do rock no geral e do seu género progressivo em particular. 
“Life Within a Day” é um daqueles discos com uma atitude: “embora lá fazer aquilo que nos dá na gana”. Sem pressões comerciais, sem grandes compromissos para agradar a este ou aquele grupo de fãs. No fundo, contrariar todo o tipo de espectativas que se posam esperar da colaboração de um ex-Genesis e de um ainda atual membro do Yes.
E foi precisamente isso que o guitarrista Steve Hackett e o baixista Chris Squire fizeram. Um disco livre de qualquer tipo de constrangimentos ou amarras do passado. Uma opção inteligente dado que se tentassem competir com o pedigree e legado lendário das suas respetivas bandas poderiam sair-se bem pior.
Assim temos um disco extremamente simpático, humilde seminalmente progressivo pela sua atitude e que demorou quase 5 anos a gravar. Tudo feito com muita calma e sem grandes ondas para não comprometer a agenda dos seus “empregos diurnos”.
Certo é que “Life Within a Day” ergue muito bem uma ponte musical alternativa entre os Genesis e os Yes. Tem aqui coisas que mais fazem lembrar uma espécie de Led Zeppelin progressivo e esotérico. O tema título “Life Within a Day” que abre o disco, mais parece uma “Kashmir” virada do avesso com as harmonias vocais dos Crosby, Stills & Nash em pano de fundo.
Aliás um dos pontos de altos nem é tanto o virtuosismo instrumental demonstrado (isso seria o caminho mais fácil e óbvio), mas as gloriosas harmonias vocais de Squire e Hackett que curiosamente nunca foram os vocalistas principais das bandas onde ganharam fama. Canções invulgares como “Divided Self” e “Sea of Smiles” são sem dúvida um bom exemplo dessa força vocal que brota dentro deste trabalho.
Mas o tema que chama mais à atenção após uma primeira leitura é “Tall Ships”. Uma canção com um poder impressionante e que sem dúvida teria sido um êxito se tivesse sido editada há 30 anos.
Segue-se temas eminentemente cósmicos mas com uma pitada de som tipicamente britânico, quase Beatlescos como “Aliens” ou “The Summer Backwards”. Temas contemplativos e com uma pitada de nostalgia inerente e que só poderiam ser escritos por quem já vê os anos da reforma a aproximarem-se cada vez mais.
No entanto há aqui coisas mais refinadas e pesadas como o fantasmagórico “Stormchaser” ou irónico “Perfect Love Song” que fecha o disco e que no meio tem um grande solo de Hackett.
Fica a plena sensação que Hackett e Squire, com a ajuda de Roger King (teclados) e Jeremy Stacey têm aqui nos braços algo que se continuarem a cultivar se poderá tornar em algo muito especial. Não será nada que os tire das suas respectivas carreiras “diurnas”, mas pelo menos vai ganhar alguns fãs de culto. Se bem que eles estejam a marimbar-se para isso tudo.
(8/10)















