A vaca “Lulubelle III” entrou acidentalmente para a história da iconografia Rock ao ter sido fotografada por Storm Thorgeson para capa de um os álbuns mais ambiciosos discos de toda a carreira dos Pink Floyd. “Atom Heart Mother” inicialmente sob o nome de “Amazing Pudding” já era tocado ao vivo desde os meados de 1969. 
Incapazes de ler pautas de música, o grupo contratou o compositor avant-garde Ron Geesin para fazer a ponte de ligação entre o mundo rock e o clássico. Tendo em conta a tecnologia da época, Geesin até nem se safou mal nos arranjos. Mas o que dá a “Atom” um toque especial é o coro de John Aldiss que a meio desta sinfonia espacial faz um “tour de force” pelos confins das constelações e estrelas do universo Pink Floyd.
O trabalho de guitarra de David Gilmour também é soberbo pois consegue alternar as escalas sem dificuldades nos solos entre os blues, o jazz e o clássico sem se tornar pretensioso. Com direito a louvor aparece também a secção ritmica de Nick Mason e Roger Waters que gravaram as suas partes sem o “input” directo da orquestra e do coro tentando imaginar o som “cacofónico” nas suas cabeças. Deve ser um exercício interessante escutar as Master Tapes e ouvir 23 minutos só de bateria e baixo…
Só no lado B é que aparecem as canções no sentido convencional. “If” é provavelmente a última canção em que ouvimos Roger Waters num estado de espírito sereno antes de se atirar aos temas depressivos em “Dark Side” ou paranóicos de “The Wall”. O abandonado e esquecido “Summer of 68”, composto por Richard Wright volta a recorrer á orquestra para criticar os excessos da vida de estrada que uma banda leva. Funciona quase como uma canção de despedida para uma “groupie”. Já David Gilmour volta a brilhar com “Fat Old Sun”. Se existisse o termo “Rock Pastoral”, este seria um dos seus hinos mais evidentes.
“Atom Heart Mother” pode até ser o álbum mais menosprezados pela crítica e pelo próprio grupo. Um marco de um tempo passado em que as bandas de rock se podiam dar aos excessos clássicos e culinários. Mas ninguém pode negar a sua ousadia e o contributo que deu ao desenvolvimento das técnicas de estúdio.
Um ano depois surge “Meddle”, o disco da mudança. A obra que atesta o papel crescente de Roger Waters no seio do grupo. Autor de todas as letras, seria ele daqui para frente o impulsionador da máquina dos Pink Floyd. Temas como a alienação; a arrogância; a pressão da sociedade sobre o indivíduo ou o distanciamento crescente nas relações humanas (e que apareceriam anos mais tarde em “Dark Side of the Moon” ou “The Wall”) começavam a ganhar força e expressão.
A lógica do “Us vs Them” que ainda hoje apazigua Waters surge pela primeira vez em Echoes”: “Strangers passing in the street/ By chance two separate glances meet/ And I am you and what I see is me/ And do I take you by the hand/ And lead you through the land/ And help me understand the best I can…”
“Echoes” é sem dúvida a “obra prima” da carreira dos Floyd. No saudoso tempo do vinil ocupava o lado B, tal era a imponência dos seus 23 minutos. Curiosamente este colosso sónico surgiu de 25 melodias diferentes compostas pelos vários membros da banda que depois de muita pesquisa e experimentação decidiram unir as várias secções do título original da peça “The Return of the Son of Nothing”.
Começa vagarosamente com pingos de sons aquáticos que depois desembocam numa melodia crescente onde a Stratocaster de Gilmour tem um papel proeminente. Pelo meio há uma espécie de “jam funk-o-espacial” com a guitarra cósmica a ir ao sétimo dos céus. Genial…
Virando o lado do disco, e voltando ao início escuta-se o vento com “One of These Days (I´m Going to Cut You Into Little Pieces)” puxado por um baixo hipnótico de Waters. Não é apenas um, mas dois baixos, Gilmour está também lá a dar o seu contributo. E no meio aparecem os teclados de Wright que com uma subtileza muito discreta arrebatam o ouvinte para as profundezas das viagens inter-galácticas. Facto assinalável é também o facto de aparecer pela primeira a voz do baterista Nick Mason.
O resto do álbum é um pouco mais ecléctico e terrestre. “Pillow of the Winds” contem grandes dedilhados de guitarras acústicas sonhadoras. “Fearless” é um hino dedicado aos fãs do futebol (no final até se ouve o tradicional “You´ll Never Walk Alone” cantado por adeptos do Liverpool)!
Cantado por Waters, “San Tropez” é uma canção ideal para quem vai de férias para a praia. “Seamus” é um blues dedicado ao cão de agradável Mariott, guitarrista dos Humble Pie e amigo de Gilmour que ocasionalmente ladrava no estúdio quando gostava de uma música!Ao fim de 36 anos, “Meddle” ainda soa a fresco e encantador. Foi quase êxito global não fosse o contínuo fracasso de vendas que a banda enfrentava nos Estados Unidos desde 1967. O grupo não contente com a situação, acusava a editora (Capitol Records) de má gestão promocional. A editora por seu turno achava que a banda não fazia música para passar na rádio e consequentemente tinha um produto extremamente difícil de comercializar .
Mal eles sabiam todos que dois anos depois a vida deles estava prestes a dar uma volta de 180º graus. Mas por enquanto os Floyd mantinham-se ainda “no lado oculto da lua”…
Geração 1970 – 1971
1 -Echoes (David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters, Richard Wright)
2 – One of These Days (David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters, Richard Wright)
3 – A Pillow of Winds (David Gilmour, Roger Waters)
4 – Fearless (David Gilmour, Roger Waters)
5 – Fat Old Sun (David Gilmour)
6 – If (Roger Waters)
7 – Atom Heart Mother (Ron Geesin, David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters, Richard Wright)
8 – Summer of ´68 (Richard Wright)
9 – Seamus (aka Madmoiselle Nobs) (David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters, Richard Wright)
10 – Alan´s Psychedelic Breakfast (David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters, Richard Wright)














