
Segue mais uma crítica da autoria do André Sousa, autor do blog “Mad Ocean…Vast Music“. Desta feita ao álbum “Director’s Cut”, de Kate Bush.
Enjoy!
Nas últimas duas décadas, a cantora com voz de sereia publicou apenas 4 discos. Pouco, se compararmos com 99,9% das carreiras que vingam no mundo da música. Porém, para Kate Bush, mãe, dona de casa, senhora do seu nariz e poetisa, ter fama e sucesso são prioridades que fazem parte do passado.
Um trilho começado há mais de 30 anos pela mão de David Gilmour, guitarrista dos Pink Floyd e que ficou encantado pela demo enviada por esta miúda de 18 anos que além do visual excêntrico (e tipicamente inglês) era dona de uma voz muito singular. Frágil, mas ao mesmo tempo pujante e que brotava cá para fora enormes quantidades de sensualidade e energia.
Ao longo dos anos 80, Bush teve o seu período mais prolífico em termos de fama, editando mais de 5 discos de estúdio e colaborando com VIP´s do meio como Peter Gabriel ou Prince. No entanto a sua vontade de se afastar dos holofotes e de viver uma vida “normal” fez com que deixasse os palcos bastante cedo, em 1982.
Desde então não se pode dizer que tenha parado, mas certamente abrandou o seu percurso. Há 6 anos editou o magnânimo “Aerial” pondo fim a um auto-exílio de mais de uma década. Agora e surpreendentemente cedo (segundo os seus cânones) chega-nos “Director´s Cut”. Mas desta feita não é de um álbum de originais que se trata. Esta aqui, é uma obra de revisão onde Bush optou por revisitar alguns dos temas que compõe duas obras essenciais da sua caminhada artística: “Sensual World” de 1989 e “The Red Shoes” de 1993. Um passo que se poderia revelar “em falso” mas que para Kate faz todo o sentido abandonando a estética digital do som em favor de uma experiência analógica que empresta um carácter: mais cheio e certamente mais acolhedor.
O seu nível de ousadia subiu um grau acima ao rescrever a letra da canção “Sensual World” transformando-a num imponente “Flower of the Mountain”. Se Thom Yorke fosse mulher certamente que gostaria de cantar e compor desta maneira.
Segue-se o meio jazzístico, “Song of Solomon”, com referências ao amor e à religião, na qual a voz toda a voz de Bush parece gravitar como um Sol emprestando alguma luz a um tema que naturalmente seria mais soturno.
Na maioria do álbum somos absorvidos por canções que misturam a vontade artística de fazer Pop com um gosto refinado com algumas tendências mais vanguardistas. “Lily”, “ToP of the City”, “This Woman Work” ou ”Moments of Pleasure” funcionam como óptimas polaroids musicais que obedecem a uma estética em que só um David Sylvian ou uma Joanna Newsom eram capazes de compreender.
A fechar temos “Rubberband Girl”. É o máximo que ela se aproxima de uma canção rock. Mas obviamente que não é uma canção rock. Como ela a descreveu é: “para se deixar ir na onda”. Uma enorme vaga sonora que nos invade deliberadamente os sentidos, à qual é impossível escapar.
(9/10)










