“O corte final”! Não podia haver título mais premonitório e controverso para o último álbum de estúdio de Roger Waters com os Pink Floyd. Ou melhor, chamar a “isto” um disco dos “Pink Floyd” chega quase a soar a falso e a roubo. Teria sido bem mais sensato da parte da editora assumir apenas o nome de Roger Waters na capa.
Aliás se lermos os créditos do álbum com atenção chama-nos logo á atenção o subtítulo: “A Requiem for the Post-War Dream – by Roger Waters, performed by Pink Floyd”.
Os Floyd passavam ao estatuto de mera banda de acompanhamento. Reféns do seu próprio baixista obcecado por álbuns conceptuais versados em temas como a alienação do ser humano; a guerra e demais visões pessimistas e esquizofrénicas do mundo!
Waters conseguia finalmente afundar os Pink Floyd (leia-se David Gilmour e Nick Mason) numa espécie de luto e depressão aguda, atemorizada pelos seus próprios fantasmas que foram catapultados para a praça pública depois da edição de “The Wall”.
Aliás a maioria das ideias musicais para a concepção de “The Final Cut” nasceram de “sobras” que por alguma razão ou outra não tiveram tempo de ser concretizadas na história de “The Wall”. Um destes “Spare Bricks” (como Waters lhe chamou) ou sobras foi precisamente “When the Tigers Broke Free”, a música que abre o filme de “The Wall” realizado por Alan Parker em 1982.
Logo no primeiro tema – “The Post War Dream” – nota-se o tom pessimista e cínico que Waters imprime ao disco: ”Tell Me Truth Tell Me Why…Was Jesus Crucified…What It For This That Daddy Died ?”. È o fantasma de Eric Fletcher Waters, pai de Roger, piloto da RAF morto em combate em 1944 o qual Roger nunca conheceu e a quem presta a sua homenagem e a quem o disco é dedicado.
Dos Pink Floyd em si, “nem sinal, nem sombra” nas primeiras quatro músicas. Apenas reconhecemos a guitarra de David Gilmour em “The Hero´s Return” e quanto a Nick Mason os seus préstimos foram dispensados a meio das gravações do álbum. Já nem sequer falo nos teclados de Richard Wright, que foi despedido após a tour de “The Wall”. O grupo após15 anos de sucesso interplanetário (sobretudo depois do êxito de “Dark Side of the Moon”) estavam feitos literalmente em “cacos”.
A dinâmica de grupo foi substituída por uma máquina bem oleada de músicos de estúdio que se limitaram a executar as ordens do “patrão” Waters. Salve-se apenas o contributo do malogrado Michael Kamen que foi o responsável pelo arranjos orquestrais e co-produtor nesta viagem ao abismo privado e paranóico de Roger Waters.
Destaque apenas para o final em “crescendo” da obra na qual finalmente escutamos algumas boas canções dignas do nome Pink Floyd: “The Fletcher Memorial Home”; “The Final Cut” e “Not Now John”. Este último, o único tema vocalizado por Gilmour que até então tinha sido quase sempre “a voz” dos Floyd.
“The Final Cut” foi lançado na Primavera de 1983 e foi a nível de vendas e crítica o pior álbum dos Floyd. Era consensual em todos que o escutaram que Roger Waters tinha exercido as suas ideias longe demais. Talvez por isso, o próprio baixista decidiu por auto recriação por um ponto final na carreira do grupo recorrendo a mecanismos financeiros e legais para extinção da “sociedade Floyd”.
Contudo, a história estava destinada a ter um final diferente. Eis que passados poucos meses, Waters é apanhado de surpresa quando aparece um press-release comunicando que os Pink Floyd estavam activos e a gravar um novo disco em Inglaterra!.
Começava assim uma longa batalha nos tribunais para se saber: “Which One’s Pink?”


















Se este álbum fosse um disco a solo de Roger Waters teria sido bem mais justo.
Mas musicalmente falando no “Universo Floyd” é sem dúvida a sua obra mais fraca. Não existe um pingo do espirito colectivo que marcou as obras anteriores.
Eu percebo-te quanto á tua critica no que toca ao Universo Floydiano deste disco.,..ou quanto á falta dele.
É certo que é um trabalho muito diferente, até porque como tu dizes, é mais Roger Waters do que outra coisa…
mas tenta (sendo que é muito dificil) fazer este exercicio: pensa neste disco isoladamente e a nivel qualititivo e musical. Continuarias a dar os mesmos 6 m 10?
Se eu pegar isoladamente neste Final Cut, daria-lhe uma nota bem mais elevada….falo por mim logicamente. Devo confessar que depois de ‘The Wall’ e ‘Dark Side…’ este foi o seguinte disco dos Floyd que ouvi. Foi aliás o primeiro que comprei, e ainda hoje o tenho em Vinyl…
Axo um óptimo disco. Muito fora dos Floyd é certo; mas tu próprio o referes através do seu próprio titulo: ‘The Final Cut’. É um corte com os Floyd…
Se dissesse na capa Waters and Sus Muchachos, em vez de Pink Floyd, certamente que as criticas teriam sido outras….bem diferentes.
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